O pioneirismo marcou a história da primeira cidade turística projetada do Brasil

A busca por petróleo na década de 20 resultou em nossa maior descoberta

“E assim surgiu, das possibilidades naturais latentes, mais um núcleo de cidade futura, daquele gênero que Jean Brunhes chamara de ‘cidade de vontade’, porque nunca surgiriam sem que alguém as sonhasse e pusesse a seguir toda sua vontade criadora no trabalho de transformar em realidade seu sonho”.

Embaixador Josué de Castro, Águas de São Pedro, 27 de fevereiro de 1941 (trecho de “Álbum de Ouro”, do Dr. Octávio Moura Andrade

Nasce a cidade-saúde

Águas de São Pedro, localizada na região central do estado de São Paulo, constitui um dos menores municípios do Brasil em área territorial – com 3,7 km². A cidade foi projetada para ser uma estância voltada exclusivamente à saúde e ao lazer.

Não surgiu do acaso, mas do encontro das águas medicinais com o empreendedor Octávio Moura Andrade (1905 – 1972). O empresário se dispôs a criar uma nova cidade, para que esse elemento de cura fosse colocado à disposição de todos os interessados em ter uma vida mais saudável. Portanto, tudo o que existe na estância foi consequência de planejamento e de sua disposição em realizar.

Por volta de 1920, o Governo do Estado de São Paulo realizou pesquisas de petróleo no município de São Pedro – cidade que na época englobava Águas de São Pedro. Como não foi bem-sucedido em achar o “ouro negro”, acabou por abandonar os poços, que ficaram jorrando água, sem aproveitamento.

A iniciativa privada, simbolizada por Ângelo Balloni, também tentou encontrar petróleo na região, mas, apesar de sua sonda atingir a profundidade de 1.615 metros, nada também fora encontrado. Dessa época, permanece a estrutura da torre como um monumento consagrado à tenacidade desse pioneiro.

Em 1934, Ângelo Franzim, em cujas terras se localizava a perfuração que produzia a água hoje conhecida como “Fonte da Juventude”, fez construir um balneário de tábuas para se banhar nas águas tidas como malcheirosas – mas que eram apreciadas pelos animais.

O empreendedorismo marcou o início de Águas

Em 1935, um grupo de esforçados são-pedrenses (Miguel Carreta, Victório Mazziero, Ernesto Giocondo, Carlos Mauro – fundador do Hotel Avenida) comprou 100.000 m² ao redor dessa fonte e construiu um balneário de alvenaria, com 12 banheiras.

Foi também naquele ano que Octávio Moura Andrade implantou a estância, provisoriamente chamada de “Caldas de São Pedro”. Para tanto, juntamente com seu irmão e sócio, Antônio Joaquim de Moura Andrade, criou a empresa Águas Sulfídricas e Termais de São Pedro S.A., a qual passaram a dirigir.

Propriedades medicinais comprovadas

A primeira providência foi analisar as águas minerais pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) da Universidade de São Paulo (USP). Tais análises, iniciadas em 1936, tiveram seus resultados finais publicadas no Boletim 26 de outubro de 1940, do próprio instituto – foram quatro anos de repetidas experiências, as mais abrangentes e completas da época no Brasil.

Para trabalhar com as águas, os empreendedores sabiam que seria necessário ir além de fazer quartos de banho ou saber sobre seus componentes químicos. Era importante conhecer a perfeita indicação terapêutica, descobrindo para quais moléstias eram eficazes e assegurando seu uso correto.

Para tanto, foi contratado o professor Dr. João de Aguiar Pupo, então diretor da Faculdade de Medicina de São Paulo (USP). Ele estabeleceu com segurança as doenças a serem tratadas por cada uma das três fontes de águas minerais aqui disponíveis e seus métodos de tratamento.

Com a qualidade das águas comprovada pelos resultados das primeiras análises, iniciou-se a compra das terras necessárias para a implantação da nova estância, já com sua denominação definitiva: Águas de São Pedro. Assim, 1.600 hectares foram adquiridos para se ter liberdade de construir uma nova cidade – localizada nas proximidades do local da fonte hoje conhecida por “Juventude”, e distante 8 km da já existente São Pedro.

O projeto de urbanização foi confiado ao reputado engenheiro Jorge de Macedo Vieira. O profissional pôde criar o melhor exemplo de cidade-jardim do Brasil, com amplos parques, muita área verde, ruas largas e suaves, sem grandes aclives, construindo, enfim, um moderno projeto perfeitamente adequado à realidade topográfica local.

A 1ª estância turística planejada do Brasil

Complementarmente, também foi contratado o célebre Escritório Técnico Saturnino de Brito, do Rio de Janeiro. A empresa planejou a infraestrutura sanitária, com o saneamento de grotas, que escoava lagoas e brejos de águas paradas; a rede de esgoto; implantação do canal central; e o modelar serviço de abastecimento de água potável, que ainda continua a atender à estância.

Como na época ainda não existia legislação prevendo obras, Dr. Octávio Moura Andrade instituiu, por meio de servidões que gravam os lotes, as características das edificações a serem feitas na nova estância, tais como recuos e outras posturas, que serviram de base para a legislação criada à posteriori.

O município de Águas de São Pedro foi criado em 1948, por proposta do então deputado estadual, depois senador e embaixador, Auro Soares de Moura Andrade – filho de Antônio Joaquim de Moura Andrade.

A busca pela qualidade de vida

A cidade nasceu com suas características de salubridade bem definidas. Em sua formação, buscou-se desenvolver uma infraestrutura que oferecesse aos moradores da época, e futuros, a melhor qualidade de vida disponível. Saneamento básico, escoamento da água pluvial e das fontes, e fornecimento de água potável foram algumas das preocupações. A tecnologia utilizada na ocasião, bem como o pensamento sobre o significado de bem-estar, continua atual.

Para que se tenha ideia da grandiosidade do planejamento da estância, somente o parque florestal ao redor do Grande Hotel São Pedro, denominado Parque Dr. Octávio Moura Andrade, foi inteiramente reflorestado com o plantio de milhares de árvores de essências, como pau-brasil, ipês, palmeiras, sibipirunas, flamboyants, acácias, tipuanas, etc., além de eucaliptos. Foram quase 1 milhão de metros quadrados reflorestados.

Águas torna-se ponto turístico nacional

A proposta foi criar um microclima mais saudável, uma vez que a região era formada por antigas fazendas de café abandonadas na crise de 1929 e cobertas de capim “barba de bode”. Foram plantados em parte do parque e em outras áreas da projetada estância 1.200 mil pés de eucaliptos, que com suas emanações propiciavam um ar mais puro aos hóspedes.

Tantos atributos atraíram muitos turistas. O Grande Hotel São Pedro, com sua imponente arquitetura Art Déco e cassino (que existia na época), chegou a receber um casal de estrelas de Hollywood: Martha Eggerth e Jam Kiepura. Outros vários artistas e personalidades brasileiras visitaram a estância, que ganhou projeção e entrou no mapa do turismo no Brasil.

Criada para fins hidroterápicos e residenciais, o balneário-cidade tornou-se um local de tratamento e busca de diversão e lazer.

Texto adaptado de Antônio Falcão de Moura Andrade.


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